quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O Som de um coração quando se fecha

“Quando um coração se fecha, faz mais barulho que uma porta.”
Esta frase que adoro é de António Lobo Antunes e desde já peço desculpa por usa-la…
Considero-me uma pessoa que gosta de escrever, para mim, uma pessoa que escreve nunca pode ser surda no coração, como são as outras pessoas, engenheiros, arquitectos, economistas, gestores, pedreiros, marceneiros, etc.
Porque pessoas como eu, escrevem com o coração e com as emoções e com as ideias, e atrás de cada uma delas há sempre uma emoção escondida. Os verbos pensar, sentir, sofrer e escrever misturam-se todos á mesma mesa e ao mesmo tempo enquanto existimos…
Enquanto eu faço raio X ás almas que se cruzam comigo, não estou a fazer mais nada a não ser descobrir a minha.
Levar com uma porta na cara dói muito. Dói sempre, dói o dia inteiro, a todas as horas e a todos os minutos. Dói tanto que os segundos se podem tornar insuportáveis e os dias facilmente se tornam em epopeias, viagens trágico-marítimas. Dói de manhã, assim que acordamos do abençoado estado de inconsciência em que o sono nos guarda, quando olhamos para o lado e perguntamos: e agora? Dói quando nos lavamos, quando comemos, quando respiramos, quando falamos, quando ouvimos, quando pensamos. Dói um bocadinho menos quando nos rimos, quando os amigos nos abraçam, quando a noite cai e os filhos nos protegem.
Mas o que mais dói é saber que alguém que ainda amamos, por medo e por sofrimento, nos fechou o coração. O som é igual ao de mil tambores em fúria: não vale a pena falar, não vale a pena escrever, não vale a pena tentar chegar ao outro lado, saltar o muro, içar bandeiras e levar na mão o nosso coração como presente, porque a outra pessoa já não quer.
E quando as pessoas ficam surdas no coração, em vez de chorarem e lamberem as feridas, simplesmente oferecem de novo um pouco do seu coração a outras pessoas….E de novo um dia, vão retirar esse bocadinho que deram e mais umas almas irão ficar com o corpo e o espírito cheio de dor….

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