Ele chegou a casa tarde.Como de costume!
Durante as horas que se foram perdendo uma após a outra, a sua angústia tinha dado lugar à raiva. Por fim à inquietação, e momentos antes ao desespero! A chave girou na porta. O coração dela bateu mais depressa. Deu um passo e depois conteve-se. Voltou-se de perfil e carregou a expressão de aborrecimento. Ele entrou. Parou e ficou a olhar para ela. Ele sabia como ela nunca lhe diria nada com a porta aberta. Tocou-lhe ao leve num ombro e disse-lhe:
- Ainda bem que esperaste por mim, amor. - Ela não lhe deu resposta. Dirigiu-se à porta e encostou-a devagar. Com todo o cuidado evitando que o ruído passasse do seu círculo íntimo para as intimidades dos outros. Queria dizer-lhe tudo o que tinha acumulado nas horas de solidão e desespero. Mas agora que ele estava ali à frente dela com a expressão mais inocente do mundo, parecia-lhe impossível dizer fosse o que fosse. Dentro dela a raiva e a alegria conviviam com a mesma intensidade. Estava feliz por tê-lo de volta mas sentia-se incapaz de dizer-lhe a raiva e o desespero e como estava farta da vida que levava. Ele aproximou-se dela, e tentou beija-la. Cheirava a álcool. Ela recuou e ele não insistiu. Durante um instante, gerindo a expectativa e numa jogada de mestre fez que iria sair novamente. Depois, voltou-se de repente, apanhou-a desarmada e abraçou-a rendida. Beijou-a. Meu Deus! Como ela o amava. Por amor ela esquecia tudo. As raivas, as esperas as traições. Caíram para cima do sofá. Ele levantou-lhe o vestido tirou-lhe em dois actos a peça de roupa intima e sem mais penetrou-a. Sem preliminares, sem uma palavra, sem um momento de magia e sedução. Não perguntou-lhe nada nem se estava a gostar. Era-lhe indiferente o orgasmo dela. Satisfez-se, bocejou e foi deitar-se. No sofá estendida com o rosto enfiado numa almofada ela cravava as unhas no tecido rasgando-o enquanto o seu desespero se abafava dentro da sua alma onde a ferida aberta gritava o crime cometido...
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